Questão 30 do Enem 2021: o gramático Pelino, de Lima Barreto
Nos outros cadernos: amarelo 36 · branco 21 · rosa 41
Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era gramático. Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do Capitão Pelino, e mesmo quando se falava em algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: “Não há dúvida! O homem tem talento, mas escreve: ‘um outro’, ‘de resto’…” E contraía os lábios como se tivesse engolido alguma cousa amarga.
Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores glórias nacionais. Um sábio…
Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Candido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola saía vagarosamente de casa, muito abotoado no seu paletó de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dous dedos de prosa. Conversar é um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se tão-somente a ouvir. Quando, porém, dos lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem, intervinha e emendava. “Eu asseguro, dizia o agente do Correio, que…” Por aí, o mestre-escola intervinha com mansuetude evangélica: “Não diga ‘asseguro’, Senhor Bernardes; em português é garanto”.
E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras, houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o seu apostolado de vernaculismo.
BARRETO, L. A Nova Califórnia. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 24 jul. 2019.
Do ponto de vista linguístico, a defesa da norma-padrão pelo personagem caracteriza-se por
Tente antes de ler a resolução: toque numa alternativa.
Resolução comentada
O que a questão pede
Como se caracteriza a defesa da norma-padrão por Pelino.
O que o texto diz
- Na conversa à toa da botica, Pelino corrige “asseguro” por “garanto”.
- “houve muitos palestradores que se afastaram”, e ele seguia “indiferente”.
A resposta
Pelino cobra a mesma correção num bate-papo informal que cobraria num texto escrito. Sua defesa da norma se caracteriza por desconsiderar diferentes níveis de formalidade nas situações de comunicação.
Alternativa E.
E Gabarito: alternativa E
Por que as outras alternativas estão erradas
- A
Pelino faz o contrário: põe a regra acima do conteúdo. (12,5% marcaram)
- B
Foi a mais marcada. Ele defende a gramática, mas o texto não fala em patriotismo. (30,4% marcaram)
- C
Ele não tolera nenhum desvio. (20% marcaram)
- D
Ele segue a gramática normativa à risca. (13,3% marcaram)
Raio-X da questão
Dados oficiais dos microdados do Inep: respostas de 2.299.643 candidatos que fizeram a prova.
Em branco: 0,6% · Mais de uma marcada: 0,1%
Quando o acerto sobe muito de uma faixa para a outra, a questão separa bem quem domina o conteúdo de quem não domina. Na TRI, isso é o parâmetro de discriminação.
Mais questões de variação linguística
- 2025 COP30 (Belém) · Q9Crônica “Saudades da secretária eletrônica”: o “pra” da oralidade
- 2025 PPL · Q17Centro de documentação de línguas indígenas no Museu da Língua Portuguesa
- 2025 · Q20A “língua de santo” dos candomblés e o patrimônio linguístico
- 2025 COP30 (Belém) · Q24A gíria “tankar”, que veio dos games
- 2025 · Q26Canjica, curau, mungunzá: os nomes do doce de milho pelo Brasil
- 2025 PPL · Q27O talian, o “Vêneto brasileiro” do Sul do país
