Questão 17 do Enem 2025 (COP30): o quartinho de empregada em “Solitária”
Nos outros cadernos: amarelo 16 · verde 12 · branco 21 · laranja 21
Quando a porta se abriu, ouvi em tom baixo: “Não saia daí até eu voltar!”. E ela se fechou, me deixando ali, no escuro. [...]
Até que acabaram os biscoitos e a água que levamos na mochila. Bateu sede, mas eu não podia sair do quartinho. Bateu fome, mas eu não podia sair do quartinho. Bateu vontade de fazer xixi, mas... descobri que tinha um microbanheiro atrás de outra porta branca: um vaso sanitário, um chuveiro que por pouco não estava sobre o vaso e, em frente aos dois, uma pia com um espelho na parede acima dela. Entre o espelho e a pia, uma prateleira com um pote, um tubo de pasta de dentes e uma escova dentro. Tudo no diminutivo.
Quando ter uma empregada que dorme no trabalho passou a ser algo caro e não de muito bom-tom, os corretores de imóveis chamariam esse local da casa de “quarto reversível”, um nome para não chamar o quartinho de quartinho ou do que ele realmente era: um lugar para serviçais, criadas, babás, domésticas, amas, empregadas. Todos esses nomes que deram e dão até hoje a quem é “quase da família”. Um lugar onde estivessem ao alcance do comando de voz, do olhar, ao alcance das mãos... A tempo e hora, vinte e quatro horas por dia.
CRUZ, E. A. Solitária. São Paulo: Cia. das Letras, 2022.
Nesse fragmento, ao refletir sobre aspectos da rotina de trabalho da mãe, a narradora
Tente antes de ler a resolução: toque numa alternativa.
Resolução comentada
O que a questão pede
O que a narradora sugere ao refletir sobre o trabalho da mãe.
O que o texto diz
- A criança espera no “quartinho” com microbanheiro, “Tudo no diminutivo”.
- O quarto ganhou o nome de “quarto reversível”, para não dizer o que “realmente era: um lugar para serviçais, criadas, babás, domésticas”.
- Nomes que “deram e dão até hoje a quem é ‘quase da família’”, mantida ao alcance “vinte e quatro horas por dia”.
A resposta
O espaço apertado e os eufemismos mostram uma separação entre patrões e empregadas que continua (“até hoje”). A narradora sugere a persistência da divisão de classe no trabalho doméstico.
Alternativa E.
E Gabarito: alternativa E
Por que as outras alternativas estão erradas
- A
Foi a errada mais marcada. A narradora fica sozinha no quartinho, mas a reflexão é sobre o lugar da empregada na casa. (23,7% marcaram)
- B
O “quase da família” é ironia contra os patrões, não crítica à família da narradora. (13,2% marcaram)
- C
A mudança de nome do quartinho é o exemplo; o alvo é a relação de trabalho que ele esconde. (7,1% marcaram)
- D
O tom não é sensível com os patrões: é crítico. (18,1% marcaram)
Raio-X da questão
Dados oficiais dos microdados do Inep: respostas de 66.577 candidatos que fizeram a prova.
Em branco: 0,5% · Mais de uma marcada: 0,1%
Quando o acerto sobe muito de uma faixa para a outra, a questão separa bem quem domina o conteúdo de quem não domina. Na TRI, isso é o parâmetro de discriminação.
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