Questão 129 do Enem 2010: Negrinha, de Monteiro Lobato
Nos outros cadernos: amarelo 128 · cinza 129 · rosa 128
Negrinha
Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.
Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.
Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma – “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.
Ótima, a dona Inácia.
Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva.
[...]
A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos – e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo – essa indecência de negro igual.
LOBATO, M. Negrinha. In: MORICONI, I. Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000 (fragmento).
A narrativa focaliza um momento histórico-social de valores contraditórios. Essa contradição infere-se, no contexto, pela
Tente antes de ler a resolução: toque numa alternativa.
Resolução comentada
O que a questão pede
De onde se infere a contradição de valores.
O que o texto diz
“dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”; “Vinha da escravidão, fora senhora de escravos”; “Nunca se afizera ao regime novo – essa indecência de negro igual.”
A resposta
Abolida a escravidão, a “virtuosa” senhora segue tratando a menina negra como escrava. A contradição aparece na resistência da senhora em aceitar a liberdade dos negros, evidenciada no final do texto.
Alternativa D.
D Gabarito: alternativa D
Por que as outras alternativas estão erradas
- A
Não é a contradição histórica. (8,6% marcaram)
- B
Não há beatas. (6,5% marcaram)
- C
Foi a errada mais marcada. O irônico é o narrador, não o padre. (27,8% marcaram)
- E
Não fala de criados. (17,5% marcaram)
Raio-X da questão
Dados oficiais dos microdados do Inep: respostas de 3.247.403 candidatos que fizeram a prova.
Em branco: 0,2% · Mais de uma marcada: 0,1%
Quando o acerto sobe muito de uma faixa para a outra, a questão separa bem quem domina o conteúdo de quem não domina. Na TRI, isso é o parâmetro de discriminação.
Mais questões de modernismo
- 2025 COP30 (Belém) · Q16Prefácio de “Diário do hospício” e “O cemitério dos vivos”, de Lima Barreto
- 2025 PPL · Q19“Infância”, de Graciliano Ramos: o menino que aprende a ler
- 2025 COP30 (Belém) · Q32Benjamim Costallat sobe a favela em 1924: mazelas e alegria
- 2025 COP30 (Belém) · Q33“O perguntar e o responder”, de Drummond: o espelho que pergunta
- 2025 COP30 (Belém) · Q41Clarice Lispector: “como é que se escreve?”
- 2024 PPL · Q6“Igual-desigual”, de Drummond: “Ninguém é igual a ninguém”
