Questão 29 do Enem 2025 (COP30): “A escrava”, de Maria Firmina dos Reis
Nos outros cadernos: amarelo 26 · verde 23 · branco 32 · laranja 32
A escrava
Senti-me tocada de veneração em presença daquele amor filial, tão singelamente manifestado.
— Sigamos, então, — tornei eu.
Gabriel caminhava tão apressadamente que eu mal podia acompanhá-lo.
Em menos de quinze minutos transpúnhamos o umbral da casinha, que há dois dias apenas eu habitava.
Eu bem conhecia a gravidade do meu ato: recebia em meu lar dois escravos foragidos, e escravos talvez de algum poderoso senhor; era expor-me à vindita da lei; mas em primeiro lugar o meu dever, e o meu dever era socorrer aqueles infelizes.
Sim, a vindita da lei; lei que infelizmente ainda perdura, lei que garante ao forte o direito abusivo, e execrando de oprimir o fraco.
Mas, deixar de prestar auxílio àqueles desgraçados, tão abandonados, tão perseguidos, que nem para a agonia derradeira, nem para transpor esse tremendo portal da Eternidade, tinham sossego, ou tranquilidade! Não.
Tomei com coragem a responsabilidade do meu ato: a humanidade me impunha esse santo dever.
REIS, M. F. dos. A escrava. In: A escrava: antologia de prosa e versos. São Paulo: Metabiblioteca, 2021.
Nesse fragmento, o ponto de vista da narradora inova na tradição observada no romance romântico, pois
Tente antes de ler a resolução: toque numa alternativa.
Resolução comentada
O que a questão pede
Em que o ponto de vista da narradora inova em relação ao romance romântico.
O que o texto diz
- A narradora abriga “dois escravos foragidos”, sabendo que se expõe “à vindita da lei”.
- Condena a lei “que garante ao forte o direito abusivo, e execrando de oprimir o fraco”.
A resposta
O romance romântico brasileiro idealizava o indígena e evitava tratar da escravidão, ou a mostrava de longe. Maria Firmina dos Reis, primeira romancista negra do país, põe no centro uma narradora que denuncia a escravidão e age contra ela. Ela aborda um tema deliberadamente silenciado.
Alternativa B.
B Gabarito: alternativa B
Por que as outras alternativas estão erradas
- A
A crítica é à lei da escravidão, não ao nacionalismo. (11,9% marcaram)
- C
Ela reconhece e lamenta a vulnerabilidade dos escravizados, não a questiona. (16,8% marcaram)
- D
Foi a mais marcada. Ela sabe da gravidade, mas a novidade está em desafiar a lei, e não em reconhecê-la. (36,7% marcaram)
- E
A agonia aparece, mas o que inova é a denúncia da escravidão do ponto de vista de quem a combate. (10,8% marcaram)
Raio-X da questão
Dados oficiais dos microdados do Inep: respostas de 66.577 candidatos que fizeram a prova.
Em branco: 0,6% · Mais de uma marcada: 0,1%
Quando o acerto sobe muito de uma faixa para a outra, a questão separa bem quem domina o conteúdo de quem não domina. Na TRI, isso é o parâmetro de discriminação.
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