Questão 19 do Enem 2024: “A falência”, de Júlia Lopes de Almeida
Nos outros cadernos: amarelo 44 · verde 32 · branco 7
Até ali que sabia das misérias do mundo? Nada. Aquela noite do Castelo, tão simples, tão monótona, fora uma revelação! Era bem certo que a lágrima existia, que irrompiam soluços de peitos oprimidos, que para alguém os dias não tinham cor nem a noite tinha estrelas! Ela, criada entre beijos, no aroma dos seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou uma saudade absurda, a saudade do céu, como dizia o dr. Gervásio, e que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que germinava no seu peito fraco.
E aquela mesma mágoa parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se à outra, a Sancha, da sua idade, negra, feia, suja, levada a pontapés, dormindo sem lençóis em uma esteira, comendo em pé, apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões rotos, curvada para um trabalho sem descanso nem paga!
Por quê? Que direito teriam uns a todas as primícias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?
ALMEIDA, J. L. A falência. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 28 dez. 2023.
Nesse fragmento do romance de Júlia Lopes de Almeida, escrito no cenário brasileiro pós-abolição, a narradora exprime um olhar crítico sobre a
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Resolução comentada
O que a questão pede
Sobre o que a narradora tem olhar crítico.
O que o texto diz
- Sancha, negra, da mesma idade da moça rica, é “levada a pontapés”, come restos e vive “curvada para um trabalho sem descanso nem paga!”.
- “Que direito teriam uns a todas as primícias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?”
A resposta
Mesmo depois da abolição, Sancha trabalha sem salário e sob maus-tratos. A narradora critica a exploração da força de trabalho da população negra.
Alternativa D.
D Gabarito: alternativa D
Por que as outras alternativas estão erradas
- A
A “artista incipiente” é um desejo da moça, não uma crítica à arte feminina. (11,8% marcaram)
- B
Foi a errada mais marcada. Não há mudança de moradia: Sancha dorme numa esteira. (24,9% marcaram)
- C
Emancipação feminina não é tema do trecho. (7,7% marcaram)
- E
Não há disputa; há uma relação de exploração. (6,7% marcaram)
Raio-X da questão
Dados oficiais dos microdados do Inep: respostas de 3.166.666 candidatos que fizeram a prova.
Em branco: 0,5% · Mais de uma marcada: 0,1%
Quando o acerto sobe muito de uma faixa para a outra, a questão separa bem quem domina o conteúdo de quem não domina. Na TRI, isso é o parâmetro de discriminação.
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