Questão 35 do Enem 2022: “Ser cronista”, de Clarice Lispector
Nos outros cadernos: amarelo 19 · rosa 42 · branco 10 · laranja 10
Ser cronista
Sei que não sou, mas tenho meditado ligeiramente no assunto.
Crônica é um relato? É uma conversa? É um resumo de um estado de espírito? Não sei, pois antes de começar a escrever para o Jornal do Brasil, eu só tinha escrito romances e contos.
E também sem perceber, à medida que escrevia para aqui, ia me tornando pessoal demais, correndo o risco de em breve publicar minha vida passada e presente, o que não pretendo. Outra coisa notei: basta eu saber que estou escrevendo para o jornal, isto é, para algo aberto facilmente por todo o mundo, e não para um livro, que só é aberto por quem realmente quer, para que, sem mesmo sentir, o modo de escrever se transforme. Não é que me desagrade mudar, pelo contrário. Mas queria que fossem mudanças mais profundas e interiores que não viessem a se refletir no escrever. Mas mudar só porque isso é uma coluna ou uma crônica? Ser mais leve só porque o leitor assim o quer? Divertir? Fazer passar uns minutos de leitura? E outra coisa: nos meus livros quero profundamente a comunicação profunda comigo e com o leitor. Aqui no jornal apenas falo com o leitor e agrada-me que ele fique agradado. Vou dizer a verdade: não estou contente.
LISPECTOR, C. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
No texto, ao refletir sobre a atividade de cronista, a autora questiona características do gênero crônica, como
Tente antes de ler a resolução: toque numa alternativa.
Resolução comentada
O que a questão pede
Que característica da crônica a autora questiona.
O que o texto diz
“Ser mais leve só porque o leitor assim o quer? Divertir? Fazer passar uns minutos de leitura?”; nos livros ela quer “comunicação profunda”.
A resposta
A crônica do jornal pede leveza e leitura rápida, e Clarice se incomoda com essa superficialidade. Ela questiona a brevidade no tratamento da temática.
Alternativa C.
C Gabarito: alternativa C
Por que as outras alternativas estão erradas
- A
Foi a mais marcada. Ela diz que se tornou “pessoal demais”: a relação é próxima. (35,8% marcaram)
- B
Crônica não tem vários núcleos. (20,9% marcaram)
- D
Não há personagens. (6,9% marcaram)
- E
O jornal é “aberto facilmente por todo o mundo”. (17,4% marcaram)
Raio-X da questão
Dados oficiais dos microdados do Inep: respostas de 2.491.503 candidatos que fizeram a prova.
Em branco: 0,5% · Mais de uma marcada: 0,1%
Quando o acerto sobe muito de uma faixa para a outra, a questão separa bem quem domina o conteúdo de quem não domina. Na TRI, isso é o parâmetro de discriminação.
Mais questões de modernismo
- 2025 COP30 (Belém) · Q16Prefácio de “Diário do hospício” e “O cemitério dos vivos”, de Lima Barreto
- 2025 PPL · Q19“Infância”, de Graciliano Ramos: o menino que aprende a ler
- 2025 COP30 (Belém) · Q32Benjamim Costallat sobe a favela em 1924: mazelas e alegria
- 2025 COP30 (Belém) · Q33“O perguntar e o responder”, de Drummond: o espelho que pergunta
- 2025 COP30 (Belém) · Q41Clarice Lispector: “como é que se escreve?”
- 2024 PPL · Q6“Igual-desigual”, de Drummond: “Ninguém é igual a ninguém”
