Questão 21 do Enem 2022: “A escrava”, de Maria Firmina dos Reis
Nos outros cadernos: amarelo 27 · rosa 18 · branco 32 · laranja 32
A escrava
— Admira-me —, disse uma senhora de sentimentos sinceramente abolicionistas —; faz-me até pasmar como se possa sentir, e expressar sentimentos escravocratas, no presente século, no século dezenove! A moral religiosa e a moral cívica aí se erguem, e falam bem alto esmagando a hidra que envenena a família no mais sagrado santuário seu, e desmoraliza, e avilta a nação inteira! Levantai os olhos ao Gólgota, ou percorrei-os em torno da sociedade, e dizei-me:
— Para que se deu em sacrifício o Homem Deus, que ali exalou seu derradeiro alento? Ah! Então não é verdade que seu sangue era o resgate do homem! É então uma mentira abominável ter esse sangue comprado a liberdade!? E depois, olhai a sociedade... Não vedes o abutre que a corrói constantemente!… Não sentis a desmoralização que a enerva, o cancro que a destrói?
Por qualquer modo que encaremos a escravidão, ela é, e será sempre um grande mal. Dela a decadência do comércio; porque o comércio e a lavoura caminham de mãos dadas, e o escravo não pode fazer florescer a lavoura; porque o seu trabalho é forçado.
REIS, M. F. Úrsula e outras obras. Brasília: Câmara dos Deputados, 2018.
Inscrito na estética romântica da literatura brasileira, o conto descortina aspectos da realidade nacional no século XIX ao
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Resolução comentada
O que a questão pede
Que aspecto da realidade do século XIX o conto revela.
O que o texto diz
- A senhora pasma com “sentimentos escravocratas” num país que se diz cristão: “Para que se deu em sacrifício o Homem Deus […]? […] É então uma mentira abominável ter esse sangue comprado a liberdade!?”.
- A escravidão “desmoraliza, e avilta a nação inteira”.
A resposta
A senhora mostra que a sociedade que se proclamava cristã e moral defendia algo contrário à própria fé. O conto aponta a hipocrisia do discurso conservador na defesa da escravidão.
Alternativa B.
B Gabarito: alternativa B
Por que as outras alternativas estão erradas
- A
Foi a errada mais marcada. A religião é usada contra a escravidão, não imposta aos escravizados. (20,1% marcaram)
- C
Ela diz que a escravidão prejudica o progresso, não que é feita em nome dele. (6,1% marcaram)
- D
O declínio vem do trabalho forçado, não de raça. (15,5% marcaram)
- E
O tom é de indignação direta, não de ironia. (12,6% marcaram)
Raio-X da questão
Dados oficiais dos microdados do Inep: respostas de 2.491.503 candidatos que fizeram a prova.
Em branco: 0,4% · Mais de uma marcada: 0,1%
Quando o acerto sobe muito de uma faixa para a outra, a questão separa bem quem domina o conteúdo de quem não domina. Na TRI, isso é o parâmetro de discriminação.
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