Questão 20 do Enem 2017: a “Declaração de amor” de Clarice à língua
Nos outros cadernos: amarelo 23 · rosa 20 · branco 8
Declaração de amor
Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. […] A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la — como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes a galope. Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo em minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas, como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.
LISPECTOR, C. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999 (adaptado).
O trecho em que Clarice Lispector declara seu amor pela língua portuguesa, acentuando seu caráter patrimonial e sua capacidade de renovação, é:
Tente antes de ler a resolução: toque numa alternativa.
Resolução comentada
O que a questão pede
O trecho que une patrimônio e renovação da língua.
O que o texto diz
“Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita.”
A resposta
“Herança” traz o patrimônio deixado por Camões; “não […] já feita” diz que a língua continua sendo construída por quem escreve. O trecho é “Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita.”
Alternativa B.
B Gabarito: alternativa B
Por que as outras alternativas estão erradas
- A
Fala da dificuldade, não da herança. (18,8% marcaram)
- C
Fala de dar vida ao pensamento, sem a ideia de herança. (13,8% marcaram)
- D
Fala do encantamento, sem o patrimônio. (6,7% marcaram)
- E
Foi a mais marcada. Fala do desejo de pureza na abordagem. (43,4% marcaram)
Raio-X da questão
Dados oficiais dos microdados do Inep: respostas de 4.697.253 candidatos que fizeram a prova.
Em branco: 0,2% · Mais de uma marcada: 0,1%
Quando o acerto sobe muito de uma faixa para a outra, a questão separa bem quem domina o conteúdo de quem não domina. Na TRI, isso é o parâmetro de discriminação.
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