Questão 28 do Enem 2024: “Capitu: memórias póstumas”
Nos outros cadernos: amarelo 36 · verde 22 · branco 34
Data venia
Conheci Bentinho e Capitu nos meus curiosos e antigos quinze anos. E os olhos de água da jovem de Matacavalos atraíram-me, seduziram-me ao primeiro contato. Aliados ao seu jeito de ser, flor e mistério. Mas tomou-me também a indignação diante do narrador e seu texto, feito de acusação e vilipêndio. Sem qualquer direito de defesa. Sem acesso ao discurso, usurpado, sutilmente, pela palavra autoritária do marido, algoz, em pele de cordeiro vitimado. Crudelíssimo e desumano: não bastasse o que faz com a mulher, chega a desejar a morte do próprio filho e a festejá-la com um jantar, sem qualquer remorso. No fundo, uma pobre consciência dilacerada, um homem dividido, que busca encontrar-se na memória, e acaba faltando-se a si mesmo.
Retomei inúmeras vezes a triste história daquele amor em desencanto. Familiarizei-me, ao longo do tempo, com a crítica do texto; poucos, muito poucos, escapam das bem traçadas linhas do libelo condenatório; no mínimo concedem à ré o beneplácito da dúvida: convertem-na num enigma indecifrável, seu atributo consagrador.
Eis que, diante de mais um retorno ao romance, veio a iluminação: por que não dar voz plena àquela mulher, brasileira do século XIX, que, apesar de todas as artimanhas e do maquiavelismo do companheiro, se converte numa das mais fascinantes criaturas do gênio que foi Machado de Assis?
A empresa era temerária, mas escrever é sempre um risco. Apoiado no espaço de liberdade em que habita a Literatura, arrisquei-me.
O resultado: este livro em que, além-túmulo, como Brás Cubas, a dona dos olhos de ressaca assume, à luz do mistério da arte literária e do próprio texto do Dr. Bento Santiago, seu discurso e sua verdade.
PROENÇA FILHO, D. Capitu: memórias póstumas. Rio de Janeiro: Atrium, 1998.
Para apresentar a apropriação literária que faz da obra de Machado de Assis, o autor desse texto
Tente antes de ler a resolução: toque numa alternativa.
Resolução comentada
O que a questão pede
Como o autor apresenta sua releitura de Dom Casmurro.
O que o texto diz
- Começa pela própria experiência (“Conheci Bentinho e Capitu nos meus […] quinze anos”), com indignação contra o narrador.
- Termina: “a dona dos olhos de ressaca assume […] seu discurso e sua verdade”.
A resposta
Primeiro ele conta a história a partir de sua leitura pessoal; no fim, revela que o novo livro será narrado por Capitu. Ele contextualiza o enredo de forma subjetiva e, na conclusão, explicita o foco narrativo a ser assumido.
Alternativa E.
E Gabarito: alternativa E
Por que as outras alternativas estão erradas
- A
Foi a errada mais marcada. Ele não reafirma o ponto de vista de Bentinho; anuncia o oposto, a voz de Capitu. (26,5% marcaram)
- B
A crítica é citada em uma frase, sem ser explicada. (17,1% marcaram)
- C
Não refuta a história; dá a ela outro narrador. (16,8% marcaram)
- D
Ele não reconsidera a escolha: “arrisquei-me”. (11,2% marcaram)
Raio-X da questão
Dados oficiais dos microdados do Inep: respostas de 3.166.666 candidatos que fizeram a prova.
Em branco: 1% · Mais de uma marcada: 0,1%
Quando o acerto sobe muito de uma faixa para a outra, a questão separa bem quem domina o conteúdo de quem não domina. Na TRI, isso é o parâmetro de discriminação.
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