Questão 32 do Enem 2021: “Estojo escolar”, de Carlos Heitor Cony
Nos outros cadernos: amarelo 14 · branco 37 · rosa 10
Estojo escolar
Rio de Janeiro — Noite dessas, ciscando num desses canais a cabo, vi uns caras oferecendo maravilhas eletrônicas, bastava telefonar e eu receberia um notebook capaz de me ajudar a fabricar um navio, uma estação espacial.
[…] Como pretendo viajar esses dias, habilitei-me a comprar aquilo que os caras anunciavam como o top do top em matéria de computador portátil.
No sábado, recebi um embrulho complicado que necessitava de um manual de instruções para ser aberto.
[…] De repente, como vem acontecendo nos últimos tempos, houve um corte na memória e vi diante de mim o meu primeiro estojo escolar. Tinha 5 anos e ia para o jardim de infância.
Era uma caixinha comprida, envernizada, com uma tampa que corria nas bordas do corpo principal. Dentro, arrumados em divisões, havia lápis coloridos, um apontador, uma lapiseira cromada, uma régua de 20 cm e uma borracha para apagar meus erros.
[…] Da caixinha vinha um cheiro gostoso, cheiro que nunca esqueci e que me tonteava de prazer. […]
O notebook que agora abro é negro e, em matéria de cheiro, é abominável. Cheira vilmente a telefone celular, a cabine de avião, a aparelho de ultrassonografia onde outro dia uma moça veio ver como sou por dentro. Acho que piorei de estojo e de vida.
CONY, C. H. Crônicas para ler na escola. São Paulo: Objetiva, 2009 (adaptado).
No texto, há marcas da função da linguagem que nele predomina. Essas marcas são responsáveis por colocar em foco o(a)
Tente antes de ler a resolução: toque numa alternativa.
Resolução comentada
O que a questão pede
O que a função da linguagem predominante põe em foco.
O que o texto diz
- Primeira pessoa o tempo todo: “vi”, “recebi”, “Tinha 5 anos”.
- Juízos pessoais: o cheiro do estojo “me tonteava de prazer”; o do notebook é “abominável”.
- “Acho que piorei de estojo e de vida.”
A resposta
Predomina a função emotiva: o cronista fala de si, das lembranças e do que sente. Ela coloca em foco o enunciador, buscando expressar sua atitude em relação ao conteúdo do enunciado.
Alternativa D.
D Gabarito: alternativa D
Por que as outras alternativas estão erradas
- A
A crônica tem lirismo, mas o centro é o eu que lembra e julga. (10,3% marcaram)
- B
O texto não fala da própria linguagem. (13,9% marcaram)
- C
Foi a mais marcada. As informações sobre o notebook servem às impressões do cronista. (31,6% marcaram)
- E
O leitor não é chamado nem conduz a narrativa. (17,6% marcaram)
Raio-X da questão
Dados oficiais dos microdados do Inep: respostas de 2.299.643 candidatos que fizeram a prova.
Em branco: 0,6% · Mais de uma marcada: 0,1%
Quando o acerto sobe muito de uma faixa para a outra, a questão separa bem quem domina o conteúdo de quem não domina. Na TRI, isso é o parâmetro de discriminação.
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