Espaço da Física · Prof. Flávio

Questão 7 do Enem 2025 (COP30): o gênero crônica em “Saudades da secretária eletrônica”

Enem 2025 COP30 (Belém) · 1º dia · caderno azul · Língua Portuguesa · Gêneros textuais

Nos outros cadernos: amarelo 10 · verde 9 · branco 6 · laranja 6

Só quer conferir? Ver o gabarito

D reflexão sobre um tema da vida contemporânea.

Texto para as questões de 6 a 10.

Saudades da secretária eletrônica

Talvez o Vale do Silício queira transformar nossos cérebros em patê para depois comê-lo

Meu velho pai sabe das coisas. Eu o chamo de “velho pai” não porque seja realmente velho: é como ele se chama ao falar comigo. Às vezes usa o epíteto num modo semi-irônico, como quem põe um cachimbo na boca pra uma foto. Outras vezes é mais a sério — acende o cachimbo. Na semana passada, por exemplo, me escreveu à uma e meia da manhã pedindo para lhe mandar um x-salada: “Alimente seu velho pai”. Meu velho pai não usa Uber Eats, iFood, Rappi ou qualquer uma “dessas coisas”.

Meu velho pai tá de saco cheio “dessas coisas”. Outro dia ele me ligou. “Recebeu minha mensagem?”. “Por onde?”. Silêncio. “Não aguento mais essas coisas” — e começou a reclamar da dificuldade de nos comunicarmos por tantos canais: “É WhatsApp, SMS, e-mail, DM no Facebook, no Instagram, no Twitter...”. “Qual era a mensagem, pai?”. “Aí é que tá. Eu tive uma ideia muito boa no meio da noite e te escrevi pra não esquecer, agora não lembro nem da ideia e nem por onde escrevi”.

Segundo meu velho pai, a razão de ele e tantos outros estarmos desmemoriados é “dessas coisas”: aplicativos e plataformas e dispositivos jorrando uma quantidade infinita de informação que de bom grado entuchamos retina abaixo, cada tela um daqueles funis de milho pra transformar fígado de ganso em patê. (Talvez o plano do Zuckerberg e seus comparsas seja esse: transformar nossos cérebros em patê para depois comê-los com cream-crackers-low-carb-glúten-free-ESG-sem-pegadas-de-carbono. A hipótese é absurda, mas não mais que o furdunço global que estamos vivendo).

Meu velho pai tá injuriado com o furdunço global que estamos vivendo e tem uma proposta bem razoável para minorá-lo. “Cinco anos sem inventarem nada. Nada. Todo mundo fica com o celular que tem, com o Android que tem, o IOS que tem, com os aplicativos que tem e os canais de televisão que tem. Quando a gente aprender a usar tudo, assistir a todas as séries, ler todos os livros, ouvir todos os podcasts, vê se precisa inventar mais alguma coisa ou para por aí mesmo”.

Concordo. A humanidade precisa de um novo Adobe Reader a cada semana pra quê, exatamente?! De que forma PhDs em física podem “otimizar” um troço que é basicamente um xerox eletrônico?

Na faculdade eu penava pra entender o que o Marx queria dizer com aquele papo de “a infraestrutura produz a superestrutura”. Mais tarde entendi e era simples e verdadeiro. A nossa maneira de agir molda a nossa maneira de pensar. Um pescador no século 19 se relaciona com o tempo, a comida, o sexo e as unhas dos pés de formas completamente diferentes do que um programador de vinte e dois anos, hoje, no Vale do Silício. É evidente que existe uma ligação direta entre a placa do meu celular e a minha placa para bruxismo. Quando meus dedos aflitos param de digitar, passam o turno pros dentes.

O supracitado alemão resumiu o que parecia ser o fim dos tempos com a frase “tudo o que é sólido desmancha no ar”. O que diria sobre nossa época em que o próprio ar se desmancha, inundado por dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e sei lá mais o quê? “Tinha que ser geral”, sugere meu velho pai, “com Biden, Merkel, China, ONU, com tudo: cinco anos sem inventarem nada. Nada. Que saudades da secretária eletrônica”.

PRATA, A. Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 11 ago. 2024 (adaptado).

Dentre os vários aspectos que podem ser elencados como caracterizadores do gênero crônica, nesse texto fica evidente o(a)

Tente antes de ler a resolução: toque numa alternativa.

Resolução comentada

O que a questão pede

Qual traço do gênero crônica aparece com clareza no texto.

O que o texto diz

  • Parte de cenas do cotidiano: o pai pedindo x-salada de madrugada, a mensagem que ele não sabe por onde mandou.
  • Passa a comentar o excesso de informação, cita Marx e fala de celular, bruxismo e crise climática.

A resposta

A crônica usa fatos miúdos do dia a dia para pensar sobre o presente. Aqui, o tema é a tecnologia e o excesso de informação: fica evidente a reflexão sobre um tema da vida contemporânea.

Alternativa D.

D Gabarito: alternativa D

Por que as outras alternativas estão erradas

  • A

    Há só pai e filho; não existem vários núcleos de personagens. (18,6% marcaram)

  • B

    Há episódios (o x-salada, a mensagem perdida), mas servem de exemplo para a reflexão, que é o centro do texto. (7,7% marcaram)

  • C

    Foi a errada mais marcada. Não há enredo com conflito a resolver. (19,1% marcaram)

  • E

    O tempo não avança na história; o texto comenta, não narra uma sequência longa. (8,7% marcaram)

Raio-X da questão

Dados oficiais dos microdados do Inep: respostas de 66.577 candidatos que fizeram a prova.

Dificuldade pela TRIFácilParâmetro B: 594 pontosFácil abaixo de 600, média de 600 a 700, difícil a partir de 700. É a 17ª mais difícil de 50 questões válidas desta prova. O parâmetro B, na escala de notas do Enem (500 + 100 · b), é a nota em que o candidato passa a ter mais chance de acertar a questão do que de errar, sem contar o chute.
Acertaram45,2%dos candidatos marcaram a D
Habilidade 1 · Competência 1Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
Como os candidatos responderam
  • A18,6%
  • B7,7%
  • C19,1%
  • D45,2% ✓ gabarito
  • E8,7%

Em branco: 0,4% · Mais de uma marcada: 0,1%

Quanto acertaram, por nota em Linguagens
  • abaixo de 50033,8%
  • 500 a 60051,3%
  • 600 a 70078,5%
  • 700 ou mais96,7%

Quando o acerto sobe muito de uma faixa para a outra, a questão separa bem quem domina o conteúdo de quem não domina. Na TRI, isso é o parâmetro de discriminação.

Mandar no WhatsApp

Mais questões de gêneros textuais