Questão 7 do Enem 2019 PPL: “Hospício é Deus”, de Maura Lopes Cançado
Nos outros cadernos: amarelo 44 · branco 18 · rosa 36 · laranja 7
19-11-1959
Eu a conheci da primeira vez em que estive aqui. Parece-me que é esquizofrênica, caso crônico, doente há mais de vinte anos — não estou bem certa. Foi transferida para a Colônia Juliano Moreira e nunca mais a vi. [...] À tarde, quando ia lá, pedia-lhe para cantar a ária da Bohème, “Valsa da Musetta”. Dona Georgiana, recortada no meio do pátio, cantava — e era de doer o coração. As dementes, descalças e rasgadas, paravam em surpresa, rindo bonito em silêncio, os rostos transformados. Outras, sentadas no chão úmido, avançavam as faces inundadas de presença — elas que eram tão distantes. Os rostos fulgiam por instantes, irisados e indestrutíveis. Me deixava imóvel, as lágrimas cegando-me. Dona Georgiana cantava: cheia de graça, os olhos azuis sorrindo, aquele passado tão presente, ela que fora, ela que era, se elevando na limpidez das notas, minhas lágrimas descendo caladas, o pátio de mulheres existindo em dor e beleza. A beleza terrífica que Puccini não alcançou: uma mulher descalça, suja, gasta, louca, e as notas saindo-lhe em tragicidade difícil e bela demais — para existir fora de um hospício.
CANÇADO, M. L. Hospício é Deus. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
O diário da autora, como interna de hospital psiquiátrico, configura um registro singular, fundamentado por uma percepção que
Tente antes de ler a resolução: toque numa alternativa.
Resolução comentada
O que a questão pede
Que percepção fundamenta o registro.
O que o texto diz
- As internas, “tão distantes”, ficam com “as faces inundadas de presença”, “os rostos transformados”.
- Dona Georgiana, “descalça, suja, gasta, louca”, alcança uma beleza que “Puccini não alcançou”.
A resposta
O canto revela, nas mulheres vistas como loucas, uma humanidade intensa e bela. A percepção redimensiona a essência humana tocada pela sensibilidade.
Alternativa B.
B Gabarito: alternativa B
Por que as outras alternativas estão erradas
- A
O sofrimento continua: “dor e beleza”.
- C
Maus-tratos não são o foco.
- D
O cotidiano não muda; o instante revela a humanidade.
- E
Não há cura.
Raio-X da questão
Dados oficiais do Inep. Os microdados desta aplicação não trazem as respostas dos candidatos, então aparecem só a dificuldade pela TRI e a habilidade avaliada.
Mais questões de literatura contemporânea
- 2025 PPL · Q13Paulo Leminski e a poesia marginal: “Como abater uma nuvem a tiros”
- 2025 PPL · Q18José Falero: “Ninguém nunca está pronto” na periferia
- 2025 COP30 (Belém) · Q19“Manual de tapeçaria”: o discurso rebuscado da diretora às mães
- 2025 COP30 (Belém) · Q20“A casa das sete mulheres”: Maria Manuela e o casamento das filhas
- 2025 PPL · Q22“Cacos para um vitral”, de Adélia Prado: o velho da roça e o vendedor
- 2025 COP30 (Belém) · Q23“A borboleta azul”, de Geovani Martins: o discurso indireto livre
